Pedro era teimoso como uma mula. Tão teimoso que um dia cismou em descobrir porque as mulas eram consideradas teimosas. Para isso, decidiu analisar detalhes do comportamento de animais da espécie. Só que o rapaz não sabia sequer diferenciar uma mula de uma égua. Mas não era burro.
Ele procurou ajuda. Foi ao maior especialista sobre o assunto da cidade. Chegou ao consultório veterinário e viu que era preciso aguardar. Pedro não tinha marcado hora. Havia quatro pessoas na sua frente. "O que tanto esse povo todo quer com o doutor?", se perguntava.
A primeira a entrar para a consulta foi uma senhora humilde. Carregava uma foto de um animal de quatro patas. Parecia um equino. Ela tinha cara de matuta. "E está bem triste com a doença que maltrata o bicho", pensou.
Depois, foi a vez de um homem de seus 35 anos. Aparentava ser jornalista. A impressão era reforçada pelo bloco e pela caneta nas mãos. Isso sem falar nos tiques nervosos associados à profissão.
A terceira foi uma velhinha de cabeça branca. A aparência não sugeria nada. Tinha cabelos longos: coisa rara nessa idade. Mas o objetivo dessa mulher, ele nem fazia ideia. "A coroa não usa nem rabo de cavalo", reparou.
Por último, chegou a hora de um adolescente. A cara tinha mais marcas de espinhas do que poros no rosto. "Esse só pode ter interesses sexuais no animal! Jegue mesmo!"
"Pedro, pode entrar, por favor", anunciou a secretária do médico.
O chamado não interrompeu o pensamento. Ele não se mexia.
"Pedro! O doutor Jorge está te esperando lá dentro!". O jovem continuava alheio à voz. Imóvel.
Na cabeça dele surgiu um enredo. De repente, ficou claro. "O adolescente abusou da mula da primeira senhora atendida. O animal está quase morrendo. O jornalista soube da história e veio fazer uma matéria para a editoria de notícias bizarras. Todos na mesma sala, mas ninguém se conhece. Incrível! Só essa velhinha uma incógnita."
"Pedro!"
"Peeedro!"
"Pedrooo!"
Nem é com ele.
Meia hora e muitos 'Pedros' depois. Continua sem ser com ele.
O médico vai até a sala de espera: "Fala comigo, rapaz!"
Nada. Sem sucesso.
A secretária informa ao veterinário quais eram as intenções do jovem. Ele começa a falar com Pedro. Mas parecia mesmo dialogar sozinho. O doutor explica que a mula é o filhote fêmea do cruzamento de um jumento com uma égua. Diz que são animais estéreis. Que no interior do estado servem para o transporte. "Vamos, Pedro, levante daí. Vamos conversar lá dentro", pede em tom de súplica.
Mas o rapaz está irredutível. Não mexe um nervo.
O médico senta. Coloca as mãos na cabeça. Lamenta sabe lá o que. Fecha os olhos e leva um susto.
"O que ela foi fazer lá dentro?", grita Pedro.
"Ela quem? A mula? Não tem mula lá dentro!"
"O que ela foi fazer lá dentro?", repete.
"Não tem ninguém lá dentro, meu Deus!"
"O que ela foi fazer lá dentro?", insiste.
"Quem é ela. Você pode me dizer?"
"O que ela foi fazer lá dentro?", aumenta o tom da voz.
"Ela quem? Me diz! Ela quem?"
O veterinário não sabe de quem o rapaz fala. Teimoso como uma mula, Pedro não muda a pergunta e nem responde ao veterinário. E é aí que a discussão empaca.

Pedro é seu super ego?
ResponderExcluirSó pra deixar registrado: está passando "ídolos" na TV e eu estou aqui lendo seu blog. Sim, por favor. Tome isso como um elogio. Adorei!!! bj Renata
ResponderExcluirQue texto absurdo... Nós, Pedros, quase não somos teimosos! Não somos! Eu disse que não somos! Não somos mesmo! Nãããão!
ResponderExcluir