6 de set. de 2009

Movimento Constante e Linear

Ela estava em movimento. Como sempre esteve. Mas o jovem casal hesitava. Os rostos não aparentavam prazer. Tinham uma expressão diferente: ansiedade. Era a primeira vez que fariam aquilo.


Os dois não imaginavam que tanta gente estivesse vendo. De repente, ganharam uma evidência que nunca tiveram.

 

Era o local público o que mais intimidava. Ali não havia penumbra nem discrição. Tinham luzes. E não eram poucas.


Mas os olhares dos namorados não pareciam se preocupar com aqueles que os encaravam. A atenção estava voltada para o movimento. Só para ele. Era excitante e desafiador.


O homem era o mais determinado a seguir. A mulher achava que tinha perdido o chão. Ou pelo menos tinha muito medo de perdê-lo. 


O próximo passo era ensaiado. A todo momento. Mas a atitude não saía do mundo das ideias. Ele ia para frente. Ela, para trás. E, assim, não se mexiam. Nada. Zero.


As mãos continuavam dadas. Um sinal de cumplicidade. Uma prova de amor. De ambos. De um para o outro. 


Mas a impaciência começava a brotar em quem assistia. A essa altura já era possível ver uma espécie de fila. Crianças, velhos; trabalhadores, madames. Tinha de tudo. Tinha plateia.


Os segundos pareciam virar horas. Intermináveis. E o movimento continuava o mesmo. Constante e linear. E eles dois lá. Parados.


Uma mulher de roupa extravagante interrompe. Bate nas costas dele: "Vai! Não tem problema! Vai dar tudo certo!", exclama.


"Anda! Pisa firme e aperta forte com a mão!", grita - de longe - um senhor de bigode.


Uma criança ri. A garotinha parece pensar: "Como podem sofrer com aquilo? É tão natural." Mas ela é muito pequena. Nem sabe o que é significa 'sofrer' e 'natural'.


A mulher começa o passo. Um pé segue o outro. As pernas tremem muito. A culpa não é só dos saltos. O homem acompanha. As mãos - as que não estão dadas - ficam perdidas. Até que passam a ajudar no equilíbrio. Agora os dois se sentem seguros. E riem.


Aplausos. A garota, o bigodudo, a perua. Todos batem palmas. 


Ainda tensos, o casal acena com a cabeça. E tudo passa muito rápido. Em doze segundos estão em um outro plano. Lá embaixo. No primeiro andar do shopping. 


Se afastam e olham pra cima. A escada rolante continua em movimento. Constante e linear.

Um comentário:

  1. Tenso fiquei eu na parte que apareceu uma criança! huahauhauhau

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