10 de set. de 2009

Cartão de Ponto

Ele não sabia o que demorava mais. Se era o caminho para chegar no trabalho ou as horas que passava dentro da empresa. Foi de repente que o prazer se transformou em tortura. Coisa de quatro meses.


Em janeiro, carimbava os formulários com ânimo. O som do impacto da mão fechada - segurando o objeto - batendo contra a pilha de papéis na mesa era quase uma sinfonia para os ouvidos da chefe. Agora, a tinta nem se fixa direito aos documentos. 


O motivo? Os elogios tinham virado reclamações. Embora tentasse, nunca conseguia agradar à manda-chuva. A mulher só pensava em bater metas! E perturbar, claro. Sem estímulo e com cobranças absurdas, a produtividade foi ladeira abaixo. 


A papelaria da esquina sentiu falta do funcionário exemplar. O número de grampos/mês que ele usava despencou. Também pudera. Atualmente, separa menos da metade dos processos que no passado. Os analistas só não fazem cara feia porque, assim, trabalham menos.


O que dá mais prazer durante o expediente é a hora do almoço. Mesmo prejudicando o orçamento apertado, aboliu a quentinha feita pela esposa. O tíquete-refeição não é mais usado para as compras do mês. Gasta todo no self-service. Faz questão de ir no restaurante mais distante do serviço. Quer ter certeza que não vai encontrar ninguém da firma.


Embora concorde com tudo que os colegas falam da carrasca durante o almoço, não quer aumentar ainda mais a sua insatisfação. Se isso acontecesse, pensaria em suicídio. Ou, então, passaria no DP. 


Ao lado dos companheiros de trabalho, entre uma garfada e outra do empadão de frango, é sempre obrigado a ouvir um 'escrota', 'babaca' ou 'filha da puta'. Ele concorda. Sabe que é muita ruindade para uma mulher só. Mas prefere garantir uma boa digestão.

2 comentários: