18 de set. de 2009

Mulheres

Irene deu risada.

Maria também. 

Mas bem na hora que devia chorar.

Foi o que Madalena fez.


Amélia não era vaidosa.

Já Marina pintou o rosto.

Sem necessidade alguma.


Bárbara maltratou seu amigo.

Ana Júlia desprezou o seu amor.

Renata acabou sozinha. 

Colheu o que plantou.


Luiza deu a mão.

Bete balançou.


Ana Paula mudou de nome.

Virou Natasha.

Sílvia virou foi piranha mesmo.

Mas quem se deu mal foi a Geni.

Acabou toda suja de merda.


A Tereza sumiu! Cade?

Catia não sabe. 

Bebeu muita cachaça.

Monica também manguaçou.

Conhaque, em outro canto da cidade.


Ligeiramente, Dalila foi buscada.

Juliana também veio.

Mas não quis saber de sambar.


Dora reinou no Frevo e no Maracatu.

Elizete preferiu aprender as canções do 'Canção do Amor Demais'.


E a Nani? Coitada!

Só foi desenhada num papel de pão mesmo.

Era melhor não terem feito nada para ela!

12 de set. de 2009

Vale o quanto pesa?

Números


Não, eles não foram feitos para facilitar a sua vida. Eles só ajudam a transformá-la numa eterna competição. Uma disputa sem fim. Entre você e os outros. E também entre você e você mesmo. 


Quanto você ganha por mês? 

R$ 1.700 bruto. 

É bem menos do que seu irmão, né? 


Qual o seu peso? 

72,5. 

Quase 8 quilos a mais que a atual do seu ex! 


Quantos anos você tem? 

37. Achou que era mais? 


Quanto custou o seu carro? 

29 à vista! 

Tem ar condicionado e direção? 


Quanto vale a sua casa? 

120 mil. 

Só isso e ainda não está quitada? 


Quanto amigos você tem no orkut? 

Uns 360. 

Ah! Duvido que você conheça todos pessoalmente. 


E no Twitter? 

Mais de 400 seguidores! 

Olha que entrou há pouco tempo, hein?!


Quanto você calça? 

41/42. 

Chinelo tem que ser um a mais, né? 


Quanto vale uma canastra limpa? 

200. 

E de ás a ás é mil? 


Qual o número do protocolo, senhor? 

24.569.3221/2009. 

Um minuto que estarei consultando o sistema para ver se o senhor estará tendo direito a esse benefício. 


Quanto foi essa blusinha?

45 reais!

Pagou bem!


Em que colocação ela ficou no vestibular? 

382. 

Aposto que passou na reclassificação. 


Quanto tempo demora da sua casa para o centro? 

25 minutos. 

Mas isso é sem trânsito, né? 


Quanto mede o seu bíceps? 

40 centímetros contraído. Tenho boas medidas, gata! 


Qual a capacidade da sua piscina? 

4.000 litros. 

A minha é maior que a sua.


Cifras. Quilos. Anos. Litros. Metros. 


Quem dá mais? 


Quem tem mais?

11 de set. de 2009

Cantada

Em um dia normal, a mulata teria apenas esnobado o cara da moto e seguido o caminho como se não tivesse percebido a tentativa de abordagem dele. Foi até o que começou a fazer. Mas mudou de ideia rapidinho quando percebeu que havia concorrência na área.


A culpa foi da loira que estava na outra calçada e vestia uma calça jeans apertada. Se chamou a sua atenção, não seria diferente com o motoqueiro. Dito e feito. Ele nem ligou a seta. Cruzou entre os carros e se aproximou da margem oposta da rua.


A mulher observou a abordagem. "Foi mais incisiva do que comigo", ponderou. Mas se 'aquelazinha lá' tinha bunda, ela contava com outros fartos atributos.


Abstraiu o frio. Tirou o casaco grosso que a protegia da baixa temperatura. A comissão de frente ficou mais em evidência. Não adiantou nada. O pescoço do homem nem ameaçou fazer a esperada volta de 180 graus.


Tentou traçar uma outra estratégia. Precisava ser rápida. A branquela estava dando bola para ele. Chegaram a parar para conversar. Pensou o quanto a oxigenada era vulgar. Ia taxar a mulher de vagabunda quando percebeu que o mais importante era chamar a atenção dele.


Tirou a blusa. Ficou apenas com o top branco decotado que estava por baixo. Não havia sutiã entre a pele e a malha. A friagem ajudou a despertar o interesse de três ou quatro rapazes que estavam na frente de uma escola. Mas quem ela queria que olhasse parecia estar focado em outra presa.


Pensou em fingir uma crise de espirro, tropeçar e cair no chão fazendo muito barulho ou jogar uma pedra na oferecida olhando para o lado contrário (assim não se incriminava). Resolveu fazer diferente: atravessou a rua para passar bem perto dos dois.


Quanto mais próximo chegava, mais encarava o predador que virou presa. Ela tentava olhar olho no olho. Mas ele não colaborava. A uma distância de dois passos da dupla, começou a ouvir o que falavam.


"Depois do sinal, dobro à direita, sigo em frente uns 200 metros, passo pelo posto e caio à direita de novo?", perguntou o motoqueiro


"Isso! Aí já vai estar bem perto da padaria onde você quer chegar", a mulher respondeu.


Ao ouvir o papo, a morena ficou constrangida. Com pressa, vestiu a blusa do lado avesso e apertou o passo. O homem agradeceu à outra mulher pela informação e seguiu viagem. Quando passou pela mulata, puxou conversa. Agora sim era uma cantada! Só que ela preferiu esnobar o cara da moto e seguir o seu caminho como se não tivesse percebido a tentativa de abordagem dele.

10 de set. de 2009

Cartão de Ponto

Ele não sabia o que demorava mais. Se era o caminho para chegar no trabalho ou as horas que passava dentro da empresa. Foi de repente que o prazer se transformou em tortura. Coisa de quatro meses.


Em janeiro, carimbava os formulários com ânimo. O som do impacto da mão fechada - segurando o objeto - batendo contra a pilha de papéis na mesa era quase uma sinfonia para os ouvidos da chefe. Agora, a tinta nem se fixa direito aos documentos. 


O motivo? Os elogios tinham virado reclamações. Embora tentasse, nunca conseguia agradar à manda-chuva. A mulher só pensava em bater metas! E perturbar, claro. Sem estímulo e com cobranças absurdas, a produtividade foi ladeira abaixo. 


A papelaria da esquina sentiu falta do funcionário exemplar. O número de grampos/mês que ele usava despencou. Também pudera. Atualmente, separa menos da metade dos processos que no passado. Os analistas só não fazem cara feia porque, assim, trabalham menos.


O que dá mais prazer durante o expediente é a hora do almoço. Mesmo prejudicando o orçamento apertado, aboliu a quentinha feita pela esposa. O tíquete-refeição não é mais usado para as compras do mês. Gasta todo no self-service. Faz questão de ir no restaurante mais distante do serviço. Quer ter certeza que não vai encontrar ninguém da firma.


Embora concorde com tudo que os colegas falam da carrasca durante o almoço, não quer aumentar ainda mais a sua insatisfação. Se isso acontecesse, pensaria em suicídio. Ou, então, passaria no DP. 


Ao lado dos companheiros de trabalho, entre uma garfada e outra do empadão de frango, é sempre obrigado a ouvir um 'escrota', 'babaca' ou 'filha da puta'. Ele concorda. Sabe que é muita ruindade para uma mulher só. Mas prefere garantir uma boa digestão.

9 de set. de 2009

Breve

Cansado, ele resolveu considerar a frase "mas foi você que escreveu?" um elogio.

8 de set. de 2009

Sobre Pedros e Mulas

Pedro era teimoso como uma mula. Tão teimoso que um dia cismou em descobrir porque as mulas eram consideradas teimosas. Para isso, decidiu analisar detalhes do comportamento de animais da espécie. Só que o rapaz não sabia sequer diferenciar uma mula de uma égua. Mas não era burro.


Ele procurou ajuda. Foi ao maior especialista sobre o assunto da cidade. Chegou ao consultório veterinário e viu que era preciso aguardar. Pedro não tinha marcado hora. Havia quatro pessoas na sua frente. "O que tanto esse povo todo quer com o doutor?", se perguntava.


A primeira a entrar para a consulta foi uma senhora humilde. Carregava uma foto de um animal de quatro patas. Parecia um equino. Ela tinha cara de matuta. "E está bem triste com a doença que maltrata o bicho", pensou.


Depois, foi a vez de um homem de seus 35 anos. Aparentava ser jornalista. A impressão era reforçada pelo bloco e pela caneta nas mãos. Isso sem falar nos tiques nervosos associados à profissão.


A terceira foi uma velhinha de cabeça branca. A aparência não sugeria nada. Tinha cabelos longos: coisa rara nessa idade. Mas o objetivo dessa mulher, ele nem fazia ideia. "A coroa não usa nem rabo de cavalo", reparou.


Por último, chegou a hora de um adolescente. A cara tinha mais marcas de espinhas do que poros no rosto. "Esse só pode ter interesses sexuais no animal! Jegue mesmo!"


"Pedro, pode entrar, por favor", anunciou a secretária do médico. 


O chamado não interrompeu o pensamento. Ele não se mexia.


"Pedro! O doutor Jorge está te esperando lá dentro!". O jovem continuava alheio à voz. Imóvel.


Na cabeça dele surgiu um enredo. De repente, ficou claro. "O adolescente abusou da mula da primeira senhora atendida. O animal está quase morrendo. O jornalista soube da história e veio fazer uma matéria para a editoria de notícias bizarras. Todos na mesma sala, mas ninguém se conhece. Incrível! Só essa velhinha uma incógnita." 


"Pedro!"


"Peeedro!"


"Pedrooo!" 


Nem é com ele. 


Meia hora e muitos 'Pedros' depois. Continua sem ser com ele.


O médico vai até a sala de espera: "Fala comigo, rapaz!"


Nada. Sem sucesso.


A secretária informa ao veterinário quais eram as intenções do jovem. Ele começa a falar com Pedro. Mas parecia mesmo dialogar sozinho. O doutor explica que a mula é o filhote fêmea do cruzamento de um jumento com uma égua. Diz que são animais estéreis. Que no interior do estado servem para o transporte. "Vamos, Pedro, levante daí. Vamos conversar lá dentro", pede em tom de súplica.


Mas o rapaz está irredutível. Não mexe um nervo.


O médico senta. Coloca as mãos na cabeça. Lamenta sabe lá o que. Fecha os olhos e leva um susto.


"O que ela foi fazer lá dentro?", grita Pedro.


"Ela quem? A mula? Não tem mula lá dentro!"


"O que ela foi fazer lá dentro?", repete. 


"Não tem ninguém lá dentro, meu Deus!"


"O que ela foi fazer lá dentro?", insiste. 


"Quem é ela. Você pode me dizer?"


"O que ela foi fazer lá dentro?", aumenta o tom da voz.


"Ela quem? Me diz! Ela quem?"


O veterinário não sabe de quem o rapaz fala. Teimoso como uma mula, Pedro não muda a pergunta e nem responde ao veterinário. E é aí que a discussão empaca.

7 de set. de 2009

Tipos de Hemorragias

A voz monótona do professor tentava explicar o que era uma 'hemorragia classe quatro'. O quadro negro estava vazio. Não havia nenhuma referência ao tema da aula. Lá no fundo da sala, onde Leonardo estava sentado, quase nada se ouvia. A conversa paralela do grupo de colegas ao lado era o que chamava a atenção.


Em pé, voltado para a turma, o senhor de jaleco branco se esforçava. Mas o tom e o volume da fala dele não ajudavam mesmo. Beiravam o inaceitável. Contribuíam para que ficasse impossível entender que o quarto nível hemorrágico é atingido quando o paciente perde mais de quarenta por cento do sangue do corpo e precisa de uma transfusão.


"Ou seja, para uma pessoa como eu, com quase setenta quilos, seriam uns dois mil mililitros?", perguntou uma colega sentada mais perto da entrada.


O professor respondeu alguma coisa que Leonardo não ouviu. Mas - pelo gestual - percebeu que concordara com a colocação da jovem, a única frase audível de onde estava. Achou um absurdo.


"Dois mil mls!" Era muita coisa. "São dois litros! Quase uma garrafa de Big Coke!", pensava sozinho. Por mais que se dividisse meio a meio. Continuava um exagero.


Foi daí em diante que ele não conseguiu mais se concentrar na aula. Só olhava para a mulher. Apesar do ângulo permitir apenas uma visão parcial, reparou o quanto era bonita. Podia ver os cabelos, as orelhas, as costas e as pernas.


Um outro som compreensível surge. Era o sinal. Antes que o velho recolhesse seu material, os estudantes já seguiam em direção ao corredor.


Leonardo levanta, caminha e senta na cadeira em frente a da jovem. Se apresenta. Descobre o nome dela: Luana. Elogia o gosto dos pais pela escolha e também o porte físico da moça. E completa: "Também acho que os seu peitos poderiam ser maiores. Mas um litro de silicone em cada um é um exagero!"


O tapa na cara surge antes dele dizer que "ficaria artificial". A agressão faz o nariz sangrar. Pouca coisa. Os médicos não classificariam como hemorragia. Nem mesmo 'hemorragia classe um'.

6 de set. de 2009

Movimento Constante e Linear

Ela estava em movimento. Como sempre esteve. Mas o jovem casal hesitava. Os rostos não aparentavam prazer. Tinham uma expressão diferente: ansiedade. Era a primeira vez que fariam aquilo.


Os dois não imaginavam que tanta gente estivesse vendo. De repente, ganharam uma evidência que nunca tiveram.

 

Era o local público o que mais intimidava. Ali não havia penumbra nem discrição. Tinham luzes. E não eram poucas.


Mas os olhares dos namorados não pareciam se preocupar com aqueles que os encaravam. A atenção estava voltada para o movimento. Só para ele. Era excitante e desafiador.


O homem era o mais determinado a seguir. A mulher achava que tinha perdido o chão. Ou pelo menos tinha muito medo de perdê-lo. 


O próximo passo era ensaiado. A todo momento. Mas a atitude não saía do mundo das ideias. Ele ia para frente. Ela, para trás. E, assim, não se mexiam. Nada. Zero.


As mãos continuavam dadas. Um sinal de cumplicidade. Uma prova de amor. De ambos. De um para o outro. 


Mas a impaciência começava a brotar em quem assistia. A essa altura já era possível ver uma espécie de fila. Crianças, velhos; trabalhadores, madames. Tinha de tudo. Tinha plateia.


Os segundos pareciam virar horas. Intermináveis. E o movimento continuava o mesmo. Constante e linear. E eles dois lá. Parados.


Uma mulher de roupa extravagante interrompe. Bate nas costas dele: "Vai! Não tem problema! Vai dar tudo certo!", exclama.


"Anda! Pisa firme e aperta forte com a mão!", grita - de longe - um senhor de bigode.


Uma criança ri. A garotinha parece pensar: "Como podem sofrer com aquilo? É tão natural." Mas ela é muito pequena. Nem sabe o que é significa 'sofrer' e 'natural'.


A mulher começa o passo. Um pé segue o outro. As pernas tremem muito. A culpa não é só dos saltos. O homem acompanha. As mãos - as que não estão dadas - ficam perdidas. Até que passam a ajudar no equilíbrio. Agora os dois se sentem seguros. E riem.


Aplausos. A garota, o bigodudo, a perua. Todos batem palmas. 


Ainda tensos, o casal acena com a cabeça. E tudo passa muito rápido. Em doze segundos estão em um outro plano. Lá embaixo. No primeiro andar do shopping. 


Se afastam e olham pra cima. A escada rolante continua em movimento. Constante e linear.